CRÓNICA DEL ULTRA TRAIL EN SIERRA AITANA

Aventura Extrema na Serra da Aitana! Descobre o Ultra Trail de Finestrat!

Aventura Extrema na Serra de Aitana! Descobre o Ultra Trail de Finestrat!

Publicamos o relato do nosso atleta de ultra trail José Cremades. 120 km. 36 horas desde a partida até ao encerramento da corrida.

CRÓNICA DO ULTRA TRAIL NA SERRA DE AITANA - FINESTRAT (ALICANTE)

Uma Nova Aventura

Um Ultra Trail de 120 km. O encerramento da corrida é 36 horas após a partida. Desta vez, publicamos o relato do nosso atleta de ultra trail, José Cremades. Sempre que algo negativo me acontece, procuro um desafio pessoal. Quando vejo que o supero e saio vitorioso, torna-se um ritual para mim definir um desafio pessoal para distrair a minha mente e o meu corpo, fechar feridas passadas e abrir um novo ciclo de luta, sacrifício e esforço.

Assim me vi envolvido neste grande desafio para terminar 2015 em grande, tanto a nível desportivo como pessoal. Nada menos do que fazer um Ultra-Trail de grande dificuldade como o «Desafio Lurbel», uma corrida que consiste num percurso de 120 quilómetros e 7.200 m de desnível positivo.

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E de Repente um Desafio

Já sabia que me tinha metido numa grande enrascada e não estava muito consciente da confusão. Mas como nas minhas veias corre sangue de Cremades e Rabasco, que mistura! Não somos teimosos! Restava-me organizar o plano de treino como o que tinha seguido para o Ultra trail de 70 Km de Botamargues em Outubro e continuar a expandir com treinos mais duros e horários noturnos.

Como te Preparares

Estes são alguns dos treinos que configurei para mim. A Serra de Crevillente 35KM 2100+ 40km 2.300+ Fazer séries no Puig Campana 3.600+ Tirada longa pela Serrella. Bernia até 52 km com 3.000+, Serra de la Romaneta 42km com 2400+ Durante a semana com treino específico em plano e séries de subidas.

Os quilómetros acumulados nas pernas eram bons, mas quase não tinha treinado desnível e, mesmo treinando muito, não perdi nem um quilo. E o melhor de tudo, não segui nenhuma dieta especial.

Isso sim, comida normal, rica em hidratos de carbono e um par de sandes para as tiradas longas, muita água e sais. Com todo este volume de treino, chegamos a Finestrat, o meu colega e eu. Alugamos um quarto numa aldeia próxima, chamada Polop, ao lado de Benidorm.

Tenho de admitir que na semana anterior estive bastante nervoso, sentia um mal-estar no estômago, só queria que chegasse o dia e estar na partida para ver como o meu corpo reagia. A corrida começava às 6 da manhã e tinha de me levantar, no mínimo, às 4, para poder tomar um bom pequeno-almoço e comer algo antes de começar.

Por causa do nervosismo, cometi o erro gravíssimo de comer em excesso até ficar empanturrado antes de iniciar a prova…

A Partida

Com a mochila bem carregada com tudo o que era essencial (roupa de agasalho, comida e suplementos), a aventura começou. Ao mesmo tempo que a minha modalidade, também começava a corrida de 80km com a qual partilharíamos o percurso nas primeiras horas. Comecei mal, cometi o primeiro erro ao sair a um ritmo muito elevado devido à adrenalina do início da corrida. Mas sabia que tinha 36 horas pela frente para alcançar o objetivo.

“PARTIDA IMPRESSIONANTE COM O MELHOR SPEAKER DE ESPANHA”

Logo no início, tivemos de enfrentar um quilómetro vertical de 3,6 no Puig Campana. Entre a Serra Cortina e o Campana, perdi-me duas vezes, mas apenas 1 km, nada de mais.

O percurso estava um pouco mal sinalizado e tive de me esforçar para recuperar o atraso e para não apanhar engarrafamento na subida e descida do Puig Campana. Até à descida, já tínhamos acumulado 1280+, uma subida dura. Com a má sorte de, na descida, ter cãibras nas duas gémeas, tendo de me atirar para o chão e pedir ajuda, ponderando desistir da corrida... e era só o princípio.

Já tinha 17 km e pensava que ainda me faltavam mais de 100 km e 5.800+, e isso, psicologicamente e fisicamente, deixa-te muito em baixo, sabendo que algo não estava bem.

Cometi Alguns Erros

Para além disso, sabia que tinha exagerado nos treinos e cometi o erro de não ir ao fisioterapeuta uma semana antes. Esse foi o segundo erro que cometi na corrida. Só tinha que improvisar e veio-me à cabeça uma situação semelhante num treino de 52 km e, pela minha experiência, sei o que é estar numa situação de desistir da corrida. Curiosamente, pode-se ir melhorando e, mais ainda, começar a desfrutar depois de muitos quilómetros.

Era hora de tirar tudo de bom e a experiência que os treinos de qualidade nos dão. Todas aquelas "tareias" a treinar e o tempo que dediquei a esta corrida que era de um só dia. Lembrei-me então do treino de Bernia e naquele dia fomos fazer 52 km e, aos 19 km, tive cãibras nas gémeas e parei uns 15 min. Baixei o ritmo e voltei a ser o de sempre.

Para Continuar

Passando as horas e o meu corpo respondia de forma positiva até que no abastecimento do ponto 30 nos bifurcamos as 2 modalidades e ficamos só os de 120Km. A afluência de corredores diminuiu drasticamente e os quilómetros seguintes realizei-os quase sempre com um companheiro com quem fizemos muito boa amizade. Trata-se de Casto Juan Recio, que é um fora de série e a quem já conhecia como grande desportista e melhor pessoa.

O meu maior medo era não ir suficientemente rápido e não conseguir terminar a prova por causa de uma cãibra nas gémeas. Ou ter de enfrentar a difícil descida do Barranco de Monesillo com as gémeas doridas. É muito técnica, e se a isso somarmos que não tenho muito respeito pelas descidas porque é o que mais gosto no trail. (Será pelas minhas experiências a esquiar em pistas pretas na juventude de criança).

Abastecimento

Felizmente, não foi a última coisa que fiz de dia e consegui chegar ao abastecimento de Confrides, mas estava há uma hora com os pés molhados ao cair num rio. Só havia uma pedra de apoio, mas estava molhada e era uma roleta russa, e calhou-me a mim. Só conseguia pensar em chegar ao abastecimento de Confrides e pedir umas meias de substituição e vestir roupa de agasalho para quando anoitecesse.

Confrides marcava o quilómetro 68 do percurso e lá esperava-nos o segundo saco de vida onde tinha guardada a roupa de agasalho. Depois de repor as energias com um prato de macarronada à bolonhesa que soube a glória e de me agasalhar para enfrentar a noite fria (demorei uns 20 minutos), enfrentei a famosa subida a Aitana já com o frontal ligado.

Neste ponto do percurso decidi juntar-me, muito prazerosamente, a Yolanda Caballero, Jorge, “Lurbel”, Juan Casto e Jose Manuel, filho de Yolanda. Formámos uma grande equipa, ajudámo-nos mutuamente e puxámos uns pelos outros como se fôssemos família, a experiência foi inesquecível! Obrigado, pessoal!.

Salvo os últimos 2,6 quilómetros, a subida foi bastante descontraída, percorrendo trilhos muito cómodos. As vistas no cume, acompanhadas pelo reflexo da lua cheia sobre o mar, eram espetaculares. Mas não havia tempo para confortos, esperava-nos uma dura descida da Serra Aitana sobre terreno rochoso e escarpado, com muitos espaços entre as pedras para poder torcer um tornozelo facilmente.

E concluímos a descida com sucesso e sem incidentes, muito tranquilos, com muita cabeça, pensando sempre em terminar o objetivo e, acima de tudo, garantir a corrida.

Supero o meu Recorde de Distância

Chegando ao abastecimento do Port de Tagarina, já tinha superado o meu recorde de quilómetros seguidos, que estava em 75km. Sabia que me esperavam mais 45km pela frente. Mas, graças aos treinos nessa parte do circuito, restava-me o que mais conhecia e estava muito contente.

O corpo respondia bem até que chegamos à última zona de descanso em Sella (90). Aqui já cheguei muito bem das pernas, e deu-me uma subida de adrenalina e uma alegria enorme, disse a mim mesmo – "Já levas 90km, dá o resto a desfrutar, por teres sido muito conservador e por teres pensado com a cabeça e não teres forçado até rebentar para poderes chegar à meta".

Assim, sem parar muito para não arrefecer, voltei a retomar o caminho com uma alegria de orelha a orelha e a animar o companheiro que necessitasse naquele momento.

O Fim Está Próximo

Os últimos 30km foram feitos um pouco lentos para que ninguém do grupo ficasse para trás à noite, aproveitando para acelerar nas subidas e nos falsos planos. Mas tendo de ir muito devagar nas descidas, pois era muito perigoso e ainda mais conhecendo a zona que era muito técnica. Nestas corridas, para além do físico, também é preciso saber sofrer.

Depois de tantas horas, é impossível não sentires dores. Mas saber contrariá-lo é a chave do sucesso. Para terminar esta experiência no ultra trail, na última descida na Serra de Orcheta, já com Finestrat ao fundo, só queria correr e correr para conseguir chegar, sabendo que tinha dado tudo.

Mas pensei que quebraria aquele grandioso grupo que me tinha guiado até à vitória e relaxei.

E Chegamos

E comecei a notar os sorrisos no rosto dos meus companheiros e fomos contagiando uns aos outros até à chegada à meta, onde entramos os 5 de mãos dadas! Com uma corrida espetacular já nos nossos corações, nesse momento passa-te pela mente todas as horas anteriores e quando te perguntavas se realmente valia a pena. Sim, senhores! Assim é, vale muito a pena!

Sobretudo pelo momento de cruzar a meta, virar a cabeça, observar o cronómetro que marca 22 horas, e aperceber-te de que TU foste quem o conseguiu. Só por esse momento, já valeu a pena.

Muitos perguntar-se-ão se realmente vale a pena levar o corpo a esse limite. Não há que procurar respostas, simplesmente cada um faz o que realmente o preenche e nestes momentos eu desfruto com esta paixão. Pode-se entender ou não, mas nunca criticar ou pôr em dúvida o esforço dos outros.

Desde aqui, quero voltar a agradecer aos meus companheiros de equipa o seu apoio e por me terem introduzido neste mundo sacrificado. Embora tivessem algumas dúvidas se eu conseguiria… entendo, o primeiro que tinha sérias dúvidas era eu. Também quero dar os parabéns ao meu guia Juan Casto, Jorge Lurbel, Jose Manuel e a Yolanda Caballero, pela primeira posição na sua categoria.

E sobretudo, agradecer de coração o apoio incondicional dos meus «Los Machacas» que me acompanham onde quer que vá qualquer companheiro. Eles sofrem mais do que eu com estas corridas, mas em nenhum momento puseram em dúvida a correção das minhas ações.

Tempo: 22:08 Classificação Geral 53 Classificação Categoria Veterano A 22 PD.

Da equipa da BeUrbanRunning queremos felicitar efusivamente José e os seus companheiros pelo desafio alcançado.

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